Depois de um tempo sem postar aqui no Blog, pretendo retomar a proposta de regularmente escrever sobre temas que considero pertinentes.
Gostaria de escrever sobre um tema que considero extremamente relevante no atual contexto da humanidade como um todo. Não que eu seja um pessimista ou um fatalista, mas nós passamos por um período da História no qual, ao mesmo tempo que é possível vislumbrar grandes esperanças na nossa capacidade de desenvolvimento também se colocam desafios imensos, os quais necessariamente precisam ser transpostos para que as esperanças de construção de um futuro próspero para a humanidade se concretizem. Desta forma, gostaria de colocar a seguinte questão: o que podemos fazer de concreto neste processo onde se faz necessário alterar significativamente os paradigmas e os modos de produção material sobre os quais nossa sociedade está assentada? Nesta pergunta já deixo claro assumir todos nós (todos mesmo!) como agentes capazes de assumir seu papel na História.
Esta pergunta não me cabe responder, apenas levantar alguns pontos que me intrigam. Sempre fui da linha de pensamento na qual assumi-se que as mudanças rumo a uma sociedade mais justa e igualitária se dariam num âmbito de luta coletiva, social, através de instituições e organizações representativas dos setores explorados que almejam a mudança. Ou seja, estas mudanças deveriam nascer na organização dos setores explorados e excluídos em torno de entidades capazes de canalizar a busca por mudança rumo a uma ruptura com a ordem estabelecida. Incluo nestas entidades os sindicatos, os partidos políticos, as comunidades eclesiais de base, as associações de bairro e os movimentos sociais/ populares em geral.
Porém, vivemos em uma época de muita confusão Política e ideológica. Depois da queda do muro de Berlim, do fim da ditadura militar em nosso país e do avanço do neoliberalismo os movimentos populares se encontraram, de certa forma, perdidos. O refluxo das movimentações populares trazido pelos efeitos acima elencados e, principalmente, a perda de organização por parte das bases que impulsionavam as lutas sociais, acabaram por gerar uma certa desconfiança em muitos setores da esquerda sobre a possibilidade de implantação de um projeto social alternativo ao capitalismo, mais justo economicamente e mais igualitário socialmente. Deve- se destacar o papel das políticas neoliberais neste quadro de desestruturação da esquerda, uma vez que através delas muitos setores foram terceirizados, relações trabalhistas foram flexibilizadas e o individualismo incentivado, o que acabou ferindo fortemente as bases sindicais do país. Um exemplo desse efeito é troca dos "Direitos do cidadão" pelos "Direitos do consumidor", dos direitos sociais inerentes a qualquer um pelos direitos que atendem somente àqueles inseridos no mercado de consumo. Enfim, sem mais blá- blá- blá, é visível a enorme confusão pela qual passamos. Basta ver declarações recentes de personagens historicamente ligados as lutas populares defendendo valores conservadores e, muitas vezes, reacionários. Como por exemplo o atual ministro da Casa Civil, o qual já pertenceu a movimentos de ultra- esquerda quando estudante e no último ano compareceu a um encontro promovido pelo Instituto Millenium (uma ONG formada pelas alas mais reacionárias da grande mídia brasileira) defendendo o monopólio dos meios de comunicação em nosso país, indo contra a posição de democratização dos meios de comunicação e de controle social dos mesmos que seu partido adotou (Partido dos Trabalhadores).
Mas o que mais me assusta é a declaração dada pelo ex- presidente Lula ( um dos símbolos da esquerda e da luta dos trabalhadores no Brasil) nos últimos dias. Lula defende que o PT procure um leque de alianças mais a direita (mais a direita ainda?!?!?!) para conquistar eleitores do campo malufista e também eleitores tradicionais do ex- governador Orestes Quércia. Ou seja, a idéia é que o partido mais popular que temos se alie com inimigos históricos daqueles que ainda militam no PT para que, desta forma, a cúpula do partido possa se sentar nas cadeiras de comando do estado de São Paulo. Muitos dos que lerão este post não devem ser filiados ao PT, porém se faz necessário entender a gravidade disto para a esquerda como um todo. Querendo ou não, o PT é o instrumento político mais eficaz e desenvolvido que temos para dialogar com as massas e organizá- las para a luta diária contra o regime do Capital. Assim, ele ainda deve ser enxergado como uma peça importante para aqueles que acreditam na transformação das atuais estruturas sociais sob as quais vivemos atualmente. A intervenção militante no PT, desta forma, é justificada e necessária, de forma estratégica para a construção de uma alternativa a atual sociedade.
Realmente, o Brasil conseguiu incluir dezenas de milhões de pessoas no mercado consumidor, tirar milhões da pobreza e elevar o nível de vida da população. Porém, há muito, muito, muito mais coisas a serem feitas para realmente construirmos uma nação verdadeiramente democrática e justa. Neste ponto coloco a necessidade de lutarmos com grande entusiasmo pela reforma política, não como fim em si, mas como meio necessário para salvarmos importantes ferramentas partidárias da sua auto degeneração e consequente perda de identidade frente às massas. A reforma política poderá ser uma forma dos partidos de esquerda sobreviverem sem a necessidade de fazerem concessões a direita para continuarem existindo eleitoralmente. Ao mesmo tempo também é necessário um compromisso maior dos militantes com nosso projeto transformador de sociedade de forma a pressionar suas lideranças e direções para que não se vendam ao jogo sujo da democracia burguesa.
O PT nasceu para ser a grande referência para o povo pobre e trabalhador, ser sua esperança e ser seu instrumento de mudança, de participação política e de melhoria da qualidade de vida. Como diz em seu manifesto de fundação: "O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do país para transformá-la." e também em outro trecho "O Partido dos Trabalhadores nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para os políticos e os partidos comprometidos com a manutenção da atual ordem econômica, social e política. Nasce, portanto, da vontade de emancipação das massas populares".
É possível mudar este estado de coisas no qual mais de um bilhão passam fome para que alguns milhares possam desfrutar do luxo e da futilidade material. Segundo dados do prêmio Nobel de economia, Paul Krugmann, 400 famílias norte- americanas concentram mais renda que 46% da população trabalhadora dos Estados Unidos. Esta acumulação toda acontece através do roubo disfarçado de liberdade e da exploração encoberta pela legalidade das leis atuais. A esquerda, no atual contexto, precisa "reaprender" a fazer o trabalho de base, conscientizando a população sobre a necessidade de luta e organização para conquistar direitos e melhorias na qualidade de vida. Além disto, precisa salvar as referências já construídas para que as idéias que prega não sejam banalizadas diante dos que pretende atingir. É uma tarefa difícil, mas motivações não nos faltam, seja nos discursos inflamados de nossos antecessores, seja no olhar cansado e abatido daqueles que "fazem parte desta massa".
Força, o caminho não é fácil e o momento também não. Assumamos nossa papel neste processo, deixemos de lado a preguiça, o medo e a má vontade para darmos lugar a esperança e ao compromisso com uma humanidade melhorada! Para isto, o principal ingrediente deve ser, indiscutivelmente a alegria...
Uma boa Páscoa a todos! Que uma nova esperança nasça em nossos corações e nos motive a lutar por esta utopia chamada socialismo!







